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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A ESCOLA APOSTÓLICA DOS PADRES JESUÍTAS DE BATURITÉ

                                                       Foto do Site do Mosteiro
           
            Desde a mais tenra idade, acostumei-me a vê-la imponente e majestosa, encravada no cimo da serra, envolta em suas palmeiras imperiais. Era o cartão postal da cidade! Aquela imensa construção de três andares com seus blocos de pedras me encantava, pois estava sempre lá, repousando no pico da serra, aparentemente tão perto, mas ao mesmo tempo longe e inacessível. Finalmente, naquele sábado, iria conhecê-la.
Acordamos cedinho e fomos (eu, Goretti, Lúcia, Maninha e Edna) com Dona Noemi, Sr. Edmundo e as filhas: Maria, Vanda, Ceição e Fafá, subir a serra em uma aventura inesquecível. Dona Noemi e Sr. Edmundo visitavam freqüentemente os filhos, Edmundo e Titico, que lá estudavam e resolveram, daquela vez, levar-nos também. Que felicidade!
Subimos a rua 7 de Setembro, a Av. Proença e chegamos à praça da Matriz quando os seus sinos repicavam chamando os fiéis para a Santa Missa. Dobramos à esquerda na rua atrás da Igreja e novamente à direita. Logo estávamos em frente à Via Sacra. Desta vez não escalamos, como de costume, seus 365 degraus e a pé fomos galgando a estreita estrada lateral, de pedras, que dava acesso aos Jesuítas, como era conhecida a Escola Apostólica.
Dona Noemi sempre cuidadosa comigo e com a Goretti, pois éramos as menores do grupo, amarrou em nossas cabeças um lenço para nos proteger da friagem. Aos poucos, fomos subindo aquela fantástica serra verdejante e admirando a cidadezinha lá embaixo, que cada vez mais se distanciava de nós. Identificávamos nossa rua 7 de Setembro, a rua 15 de Novembro, a Matriz, a Prefeitura, a Cadeia Pública, o Cemitério, a Igreja Santa Luzia, as pracinhas e tudo mais que nossa vista alcançasse.
Felizes e em perfeita harmonia com a natureza, íamos descobrindo com nossa curiosidade infantil os encantos daquela serra. O cheiro de terra molhada, a mata virgem, a fragrância que emanava das flores silvestres, o orvalho nas folhas qual lágrimas brilhantes, o friozinho da serra, as borboletas coloridas, os passarinhos, o ar puro, a água límpida e fresquinha que descia entre as pedras nos chamados “olhos d’água”.
Com uma concha, feita com nossas mãos, bebíamos aquela água reconfortante e pura matando nossa sede. As mangueiras carregadas eram uma atração com seus galhos pendentes repletos de mangas quase beijando o chão de tão pesados. Íamos catando as que encontrávamos e solvendo seu néctar adocicado. Aqui e acolá: cajueiros, pitombeiras, goiabeiras, bananeiras e sirigueleiras.
O cantar das águas e o gorjear dos pássaros prediziam a aproximação da cachoeira e do poço da moça com sua lenda. Da margem da estrada admirávamos fascinadas a queda d’água e procurávamos desvendar os mistérios daquele poço encantado. De repente, a visão gigantesca do Colégio Jesuítas, por entre as copas das árvores, que a cada curva aumentava de tamanho. Prosseguindo chegamos à ponte.  Enfim, o rio! Lá paramos para um descanso e para admirar o rolar das águas que desciam da serra por entre as pedras de tamanhos variados. Olhando pra cima admirávamos a imponente construção se agigantando diante de nossos olhos e sabíamos que estávamos bem perto de alcançá-la. Mais algumas voltas e fomos recompensados pela visão esplendorosa daquele imenso prédio de pedras envolto por palmeiras imperiais, da casa de hóspedes onde iríamos pernoitar e da vista magnífica que se descortinava do alto da serra.
No sopé, Baturité entre outras serras azuladas. No horizonte, Aracoiaba, a Serra do Tamanco e a Pedra Aguda. A gruta onde as meninas diziam que havia a Branca de Neve e os sete anões completava o fascínio daquele lugar. Depois de nos alojarmos na casa de hóspedes fomos conhecer a Escola e visitar o Titico e Edmundo. A entrada principal ficava na lateral, ao lado da capela.
Subimos correndo as escadarias que davam acesso à uma saleta (parlatório) com suas cadeiras de palhinha, uma mesinha com uma quartinha de água fresca e uma caneca. A porta de madeira talhada e pesada que separava o parlatório do interior da Escola tinha uma portinhola na parte superior que nos proporcionava uma visão limitada do pátio interno. Fazíamos fila para olhar através dela. A Vanda e a Maria nos colocaram (eu e a Goretti) em seus braços para que também, como elas, vislumbrássemos o claustro com seu jardim, seu roseiral multicolorido e perfumado e a fonte com uma imagem de Nossa Senhora. Era tudo o que podíamos ver, pois a clausura vedava às mulheres o acesso interno. Somente os homens podiam adentrar o magnífico colégio.
A capela!  Uma escadaria dava acesso à mesma. Seus afrescos retratando o naufrágio de um navio com os padres jesuítas morrendo afogados, mas com suas almas conduzidas ao paraíso, impressionavam. À direita havia o altar privilegiado que abrigava a pedra d’ara com relíquias de mártires.   Podia-se conseguir indulgências rezando nesse altar e todas nós, de joelhos, rezamos para recebê-las.
Desvendamos, em seguida, todos os recantos em torno do Colégio. A barragem Tijuquinha do rio Aracoiaba que abastecia a cidade e que havia sido inaugurada pelo governador Raul Barbosa em 19 de Março de 1954, na administração do então prefeito, Miguel Edgy Távora Arruda; a imensa piscina de cimento, atrás da Escola; o campo de futebol; o bananal; o bambusal; as trilhas e as casas dos moradores.
A Casa de Retiros Fechados São José, no sítio Caridade, no alto da serra, era totalmente inacessível e jamais fomos lá. Somente os padres e alunos tinham esse privilégio. O almoço fornecido pelos jesuítas e compartilhado por todos, inclusive pelos Titico e Edmundo tinha um sabor de piquenique. À noite, em nossas redes, dormimos cansadas da caminhada, mas completamente felizes.

Um comentário:

  1. Que lindo! Quase que posso imaginar tudo, basta fechar os olhos...adorei. Conheço o sítio Caridade e tenho fotos de lá.Aos terceiros domingos acontece a Missa do Vaqueiro na capelinha e sempre vou para registrar..o lugar é lindo tbém mas precisa de conservação.

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