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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

DE VOLTA À PAULICÉIA DESVAIRADA

                                          Teatro Tuca -PUC-SP                 Rua Monte Alegre

            Às 15h o avião da TAM decolou do aeroporto Pinto Martins em direção à SAMPA. A viagem foi bem tranqüila, mas a expectativa do reencontro me deixava ansiosa. A chegada ao aeroporto de Guarulhos, não fosse a imagem do Rose me esperando e a tristeza por não tê-lo mais, foi sem maiores contratempo. Ao invés do abraço quente e carinhoso do querido, senti-me envolvida pelo manto gélido da noite de SAMPA. Por que um abraço tão frio e inexpressivo? Um calafrio percorreu minha coluna e pensei que talvez SAMPA estivesse sentida com minha ausência durante quase três meses. 
            Apanhei um táxi como um autômato e de repente estava na Rua Caiubí, 372. Ao adentrar meu apartamento, novamente, o frio me invadiu. Liguei para a Bolota e o Pepê já estava dormindo. A saudade bateu fundo e me deu vontade de voltar, mas estava a quase três mil quilômetros de distância. Liguei para o Daniel e me certifiquei que tudo ia bem. Pensei na Janinha e em seu trabalho no navio, ao lado do Dani. Fui dormir bem agasalhada e tristonha.
            Cedinho, despertei com o cantar dos pássaros que todos os dias pousam de galho em galho nas imensas árvores que ficam em frente ao meu prédio. Fiquei feliz com os regorjeios dando-me as boas vindas. Às 6h30min desci e fui à padaria “Elite das Perdizes” comprar o pão quentinho e o indescritível bolo de aipim. Tudo estava como antes. Parecia que tudo tinha ficado congelado no tempo e encontrei as mesmas pessoas nos mesmos lugares. Na esquina, a banca de frutas me esperava com as rodelas docinhas de abacaxi, as maçãs suculentas, as mexericas e laranjas viçosas etc, etc...  O porteiro do prédio era o mesmo, com sua simpatia, dando-me as boas vindas. Senti-me acolhida e reconheci, finalmente, a paulicéia desvairada.    
            Ouvi no noticiário da TV que o frio não daria trégua e que a máxima não passaria de 18 graus naquela sexta-feira, 26 de setembro de 2008. Resolvi me preparar para enfrentá-lo com uma xícara de capuccino fumegante, bolo de aipim, pão e requeijão quentinhos e as frutas deliciosas que acabara de comprar.
             Acessei a página da PUC e tomei conhecimento de que as inscrições para o doutorado haviam sido prorrogadas até o dia 10 de outubro. Que noticia maravilhosa! Assim, iria dispor de mais tempo para concluir meu projeto de doutorado sobre as representações do tabagismo na sociedade brasileira. Preenchi o formulário de inscrição e paguei uma taxa de R$ 200,00. Tudo pela internet!
             O sol apareceu mais forte no final da manhã e resolvi sair. Dobrei a esquina da Caiubí e segui pela Rua Monte Alegre em direção à PUC. Entrei no número 1.104 e perguntei pelo meu diploma de Mestre em História, que havia solicitado em junho, antes da longa viagem à Fortaleza e à Europa. Estava pronto. Quanta emoção foi apreciá-lo! Lembrei-me do Rose e na alegria que lhe causaria pela conquista deste título. Imponente, na cor amarelo ouro, com um rendilhado dourado muito delicado nas bordas, a logomarca da PUC à direita e da República Federativa do Brasil à esquerda, trazia os seguintes dizeres: “A Reitoria da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, no uso de suas atribuições, tendo em vista a conclusão do curso de Mestrado no Programa de Estudos Pós-Graduados em História, na área de concentração História Social, em 5 de maio de 2008, confere o título de Mestre a Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg, brasileira, natural do Estado do Ceará, nascida a 07 de julho de 1950, RG 38.944.922-2-SP e outorga-lhe o presente diploma, a fim de que possa gozar de todos os direitos e prerrogativas legais. São Paulo, 23 de junho de 2008”.
Abaixo, as assinaturas: Cardeal Dom Odílo Pedro Scherer - Grão Chanceler, Dra. Maura Pardini Bicudo Véras – Reirora, Dra. Anna Maria Marques Cintra – Presidente Pós-Graduação e a minha, a diplomada.
Com muito cuidado o coloquei em sua capa azul marinho e o guardei em minha pasta preta.
            Atravessei a Rua Bartira e passei em frente ao Teatro TUCA. Li as propagandas das peças, apreciei sua fachada e sua História e cai na PUC. O burburinho de alunos era o mesmo, todos bem agasalhados por causa do frio atípico naquela manhã de primavera. Almocei rapidamente um bife com arroz, feijão e salada. Senti-me reconfortada e fui à biblioteca para saber exatamente a localização dos exemplares de minha dissertação. Não tive a menor dificuldade de encontrá-los. Estavam lá, juntinhos, na posição: DM 900R812g EX2. Espero que sejam bastante manuseados pelos futuros pesquisadores.
            Saí da PUC pela Rua Ministro de Godói e desci a João Ramalho em direção ao Pastorinho. Lá as orquídeas estavam mais lindas do que nunca, entre tantas flores de diversas cores, belezas e perfumes. Comprei carne moída e legumes para fazer uma sopa no jantar e assim enfrentar a noite fria.
            Subi a Rua João Ramalho e dobrei à direita na Rua Monte Alegre, lépida e fagueira, apesar do peso das compras. Passei em frente à Igreja, ao prédio velho da PUC e lembrei-me das carmelitas descalças que habitaram aquele convento até meados do século XX, quando foram transferidas para outro endereço a fim de a Igreja instalar a Universidade, nele.
            À tarde, reli “Paris é uma festa”, de Ernest Hemingway, e uma onda de nostalgia me invadiu. Como diz o autor: “Se você teve a sorte de viver em Paris, quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel”. Eu não tive esta sorte, mas, certamente, no ocaso de minha vida, viverei em Paris. Li, também, “Tudo por causa do Sol” de minha amiga escritora, Nilze Costa e Silva, que me deu o prazer de sua companhia durante a viagem à Europa. Trocamos idéias... Estou saboreando seu livro como quem saboreia um bom vinho... doucement...
            Até o final do dia e após o telefonema de minha amiga Silvia, reencontrei-me com a paulicéia desvairada. Depois de apreciar da janela de minha sala a igreja iluminada no alto de um morro (ainda não descobri o nome desta igreja que me lembra a “Sacré Coeur” de Paris) declarei meu amor à SAMPA. Cidade dos modernistas como: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Menotti Del Pichia, Victor Brecheret e tantos outros que fizeram a semana de Arte Moderna, também conhecida por semana de 22, pois ocorreu entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal. No curto tempo de 7 dias foram apresentadas poesias, músicas e palestras sobre a modernidade, representando uma verdadeira renovação de linguagem, na busca de experimentação, na liberdade criadora na ruptura com o passado. O evento marcou época ao apresentar novas idéias e conceitos artísticos dando inicio ao Modernismo no Brasil. A poesia através da declamação, antes, era só escrita. A música por meio de concertos, só havia cantores sem acompanhamento de orquestras sinfônicas. A arte plástica exibida em telas, esculturas e maquetes de arquiteturas, com desenhos arrojados e modernos etc, etc... São Paulo passou a se impor no Brasil pela cultura...
            Com a alma leve e feliz declarei meu amor à cidade que me fez historiadora, que me abriu novos horizontes...Cidade, enfim, do querido Rose, onde vivi anos de plena felicidade...
  
São Paulo, 27 de setembro de 2008.
Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg

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