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sábado, 31 de dezembro de 2011

APRECIAÇÃO CRÍTICA DE UMA OBRA DE ARTE RENASCENTISTA: Alegoria da Primavera – Botticelli

Alegoria da Primavera de Sandro Botticelli

            Circulando pela Galeria “Degli Uffizi” em Florença, fica-se extasiado ao contemplar a tela de Botticelli, “Alegoria da Primavera”, pintada, em 1478, por encomenda de Lourenço, o Magnífico, para decorar a Villa di Castello, residência de verão dos Médicis. Ao lado dessa maravilha da arte renascentista, outra tela avassalante, “Nascimento de Vênus”, nos chama a atenção.  
            Contemplando a primeira tela, identificamos a “Primavera” cercada de alegorias tiradas da antiguidade: As Três Graças, Deus Mercúrio e jovens simbolizando ninfas gregas, evocando um mundo clássico. Não há nessa tela preocupação de reproduzir fielmente a anatomia das personagens. A perspectiva desempenha papel secundário e a paisagem quase não existe. O semblante da Primavera evoca misticismo. É uma jovem alta, esguia, loira, de face macilenta, olhar distante e triste, como a descreveu Rosemberg.  As figuras são leves, suaves quase imateriais com seus rostos sem sorrisos e  suas expressões contemplativas. Assim, são, também, todas as madonas pintadas pelo artista.
É importante notar que esse gênio da pintura, Alessandro Mariano di Vanni Felipepi (Alessandro Botticelli), procurou se enquadrar no contexto da época em que viveu. Para a Igreja, cuja a influêcia era prevalente no século XV, a pintura representava instrumento de propagação da fé. Essa concepção parece estar refletida na tela que estamos comentando.
            A propósito, tentaremos uma digressão, lembrando que Bouchardt, grande crítico, valoriza a descrição da obra levando em consideração o volume, proporção, movimento e o jogo de luz e sombra.  Pouco disso, na tela que analisamos. Ela se aproxima muito mais dos conceitos de Merleau Ponty, outro grande crítico, de que menos interessa o tempo e suas imagens do que a subjetividade e o sentimento do pintor.
            Nesse particular, há um interessante aspecto a ser considerado, que foi abordado por José Rosemberg no seu estudo  “A tuberculose, seu romantismo e aculturação”.
A modelo que Botticelli usou chamava-se Simoneta Vespucci e, segundo suas biografias, ela se tratava com os especialistas da tísica “Fisici del Ético”.
Simoneta morreu tuberculosa aos 23 anos de idade. Ninguém melhor do que ela para expressar, na tela de Botticelli, a dor, a resignação e, paradoxamente, a fé em uma  primavera longínqua que ela contempla com seu olhar distante.


Observação: As três Graças do quadro “Alegoria da Primavera” foram, ulteriormente, configuradas quase da mesma forma nas telas de Raphael e Rubens. 

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg

Fortaleza, 31 de dezembro de 2011

 

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