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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

AMÉRICA UTÓPICA

   
"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".



O que significa utopia? Segundo o dicionário Aurélio, utopia [Do gr. ou, ‘não’, + - top(o)- + -ia: ‘de nenhum lugar’.] S.f. 1. País imaginário, criação de Thomas Morus.
O viajante Raphael Hitlodeu, que participou da expedição de Américo Vespúcio, fez um relato fictício a Morus, descrevendo a fantástica “Utopia”, uma ilha paradisíaca. Foi a partir deste relato que Morus escreveu, em 1516,  sua obra “Utopia”. Nesta obra ele nos mostra  um lugar imaginário onde todos são felizes, vivem e trabalham para o bem comum. Por isso, o termo “utopia” foi associado à fantasia, sonho, fortuna e bem estar.
Darcy Ribeiro em sua obra “América Latina: A Grande Pátria”, se reporta a América utópica no capítulo “A Nação Latina Americana - A Utopia era Aqui”.
Segundo Ribeiro, a América nasceu sob o signo da utopia. As primeiras noticias que chegaram à Europa sobre a América falavam desse paraíso, da  inocente selvageria de seus habitantes, do jardim tropical idílico com seus índios inocentes e sem roupa.   
Leon Pomer em sua obra, “As Aventuras que Voltaire não contou sobre Cândido e Cacambo, e as que nós contamos sobre Nicolás I, imperador dos Mamelucos”, utiliza as personagens de Voltaire (Cândido, Cacambo, Pangloss e Cunegunda) e sua personagem (Nicolás I, Imperador dos Mamelucos) para nos contar as aventuras dos colonizadores espanhóis e portugueses e dos missionários jesuítas aqui na América.
O autor nos narra, de maneira singular, como os colonizadores chegaram ao Novo Mundo, suas expectativas, seus  sonhos e ambições com a América Utópica, o Jardim de Éden, o Paraíso Terrestre perdido pelo pecado de Adão e Eva. Paraíso que no século XVI povoava as mentes e os sonhos dos europeus e que deveria ser recuperado.  
            A busca desse eldorado fazia com que expedições reunissem todo tipo de gente que sonhava com esse mundo utópico como: soldados, aventureiros, mendigos, loucos,  bufarinheiros, tuberculosos, sifilíticos etc. Todos eram impulsionados pela mesma obsessão:  a riqueza, as montanhas de ouro, a felicidade suprema que povoava a imaginação dos primeiros navegadores que aqui chegaram e que descreviam a América como esse paraíso.
Os colonizadores ao chegarem à América mal alimentados, vindos em navios fétidos, imundos, desconfortáveis, abarrotados de gente (que suportavam todo tipo de infortúnio para chegar ao paraíso) se deparavam com uma realidade completamente diferente. Em busca do Eldorado, eles massacraram, escravizaram e dizimaram os índios (habitantes da América), vistos como canibais, sodomitas, inimigos da verdadeira religião, preguiçosos, ladrões, mentirosos e traidores.   
Várias questões sobre os referidos índios foram levantadas: eram humanos? tinham alma?  Em Salamanca houve uma discussão acirrada para saber se os índios eram ou não bichos. Finalmente chegaram a conclusão de que eram gente e que deveriam ser catequizados.  
A Europa cristã se viu obrigada a salvar os índios pagãos. Os padres jesuítas resolveram, com a máxima boa intenção, acredito eu, salvar esses pagãos, catequizando-os. Acreditavam que os índios estavam mergulhados no pecado da nudez, da luxúria, da antropofagia, do incesto, da feitiçaria, da sodomia e da lesbiania. Embarcaram para o Novo Mundo com uma “sagrada missão”.
 Por mais que os jesuítas tenham se esforçado, as conversões dos índios  foram superficiais e a adoção do cristianismo foi, também, superficial. Apesar de letrados, os europeus não compreenderam que a cultura dos índios não era inferior a deles e que, por isso, não deveria ser mudada. Foi uma verdadeira tragédia a catequização dos índios, além de um terrível equívoco que levou a um grande genocídio e quase dizimação dos habitantes da América.
Os europeus trouxeram com eles várias doenças como: tuberculose, varíola, sarampo, malária, sífilis, gonorréia etc. Somadas as guerras, essas moléstias contribuiram, enormemente, para o extermínio de tribos indígenas. A conjugação catequese e contaminação, guerras de extermínio e escravidão reduziram drasticamente as populações indígenas.
Penso que os índios deram o troco aos europeus por tal extermínio, pois legaram ao homem branco o mortífero tabaco. O mesmo penetrou na Europa, em 1560, através de Jean Nicot,  e espalhou-se rapidamente. Mais de quinhentos anos se passaram e ainda lutamos para erradicar essa epidemia que ceifa milhares de vidas no mundo inteiro.  
A utopia desapareceu. A esperança do paraíso terrestre frustou-se. Cidades foram construídas na América. O povo nesse Novo Mundo foi e é uma força de trabalho, um meio de produção. Primeiro, escravos. Depois, assalariados. Nós somos, infelizmente, resultantes de empreendimentos que visavam saquear riquezas, explorar minas e promover a produção de bens exportáveis para gerar lucros.
A utopia acabou... Ainda resta esperança?

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
Fortaleza, 29 de dezembro de 2011.



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