sexta-feira, 31 de julho de 2020

sábado, 25 de julho de 2020

TUBERCULOSE E COVID-19: a busca da cura

Artigo publicado no Jornal do Médico
Link, abaixo

https://jornaldomedico.com.br/wp-content/uploads/JMe%CC%81dico-03-digital-julho-web-.pdf



TUBERCULOSE E COVID-19: a busca da cura

Segundo Stefan Cunha Ujvari, os agentes infecciosos já circulavam no animal ancestral comum que deu origem ao Homo sapiens e ao chimpanzé. Portanto, as doenças causadas por vírus, bactérias e parasitos acompanham a nossa espécie desde que surgimos, há 200 mil anos, na África Oriental. Adquirimos outros microrganismos, enquanto caçadores e coletores, e outros mais quando descobrimos a agricultura e domesticamos os animais. Os microrganismos se espalharam pelo globo nas migrações dos humanos. Hoje, sabemos como eles surgiram e o percurso que fizeram na carona dos sapiens, através do estudo do DNA e RNA.
A tuberculose (tísica) já acometia ancestrais humanos antes do nosso surgimento. Descobertas em Djibouti, um pequeno país da África Oriental, revelam que formas de bactérias que causam a tuberculose foram precursoras da atual Mycobacterium tuberculosis. Era senso comum que o M. bovis, presente no gado, havia infectado os humanos com a domesticação desses animais.  Hoje, essa teoria caiu por terra com a descoberta das bactérias de Djibouti, e com trabalhos que comparam a sequência genética das micobactérias, colocando o M. bovis como umas das últimas a evoluir.
A tuberculose, diferentemente da Covid-19, é doença milenar. Sua origem se perde nas noites do tempo, como dizia Rosemberg. Cientistas encontraram em múmias egípcias o DNA do bacilo da tuberculose. Conhecida como tísica, ela já atingia os egípcios desde a unificação do Alto e Baixo Egito. 
Referências históricas mostram que, há três mil anos, havia tentativas de tratamento para a tuberculose, nas civilizações hindu e persa.  Hipócrates, Galeno e as escolas de Cós e Cnide, na Grécia; de Alexandria, no Egito; de Salerno, na Itália e Montpellier, na França, preconizavam o repouso e a alimentação para curar a tísica. Até a primeira metade do século XX, esse tipo de tratamento, com o nome de higienodietético, foi fartamente utilizado. 
Avicena e Averoes tratavam os tísicos com rosas vermelhas moídas e espalhadas no quarto. Outra receita era forrar o chão com pétalas de rosas vermelhas e ramos de plantas aromáticas, sobre os quais o tísico deveria passear o maior tempo possível. Galeno propôs aos tuberculosos viverem em quarto subterrâneo, de temperatura amena, sendo o assoalho coberto de rosas. (Rosemberg, 1999).
A hemoptise, sintoma mais dramático da tuberculose, era tratada com infusões de: repolho, pó de casca de caranguejo, pulmão de raposa, fígado de lobo em vinho tinto, entre outras bizarrices. Avicena (c.980-1037) receitava infusão de rosas vermelhas em mel, por via traqueal. Erasistro e Europhilus receitavam, para as grandes hemoptises, garrotes nos braços e coxas. (Rosemberg, 1999).
O leite foi preconizado durante quase três mil anos. Desde as civilizações antigas, hindu e persa, até o século XIX, o leite preferido foi o de jumenta, mas também o leite de cabra, de fêmea de elefante e de camelo eram usados. Para Avicena, os homens tísicos deveriam tomar leite de mulher jovem e bela.  Na renascença, Petrus Forestus preconizava leite fresco de mulher. O ideal era ser sugado diretamente da mama de uma jovem lactante. Não havia nada mais erótico e romântico. Na mesma época, indicava-se temporadas em Veneza, com passeios diários de gôndola ao som de canções eróticas.
Para dispneia e tosse crônica, há receitas persas recomendando comer crocodilo cozido. Por volta de 75 d.C., Dioscórides receitava resina de múmias egípcias com mel. Esse tratamento, que foi empregado por séculos, era caríssimo e só pacientes muito ricos tinham acesso. Os reis da França Luís XIII e Luís XV, tuberculosos, foram assim tratados.
 Do "septeto da panaceia", sangria, purgativos, ventosas, vesicatórios, eméticos, sanguessugas e clisteres, indicados para todos os males, somente o sétimo não fez parte do tratamento usado na tuberculose. A sangria, preconizada por Galeno, foi fartamente praticada até o final do século XIX.
Bayle e Sydenham recomendavam alterar o repouso com cavalgadas. Louis XIII foi submetido ao tratamento em voga. O filho de Napoleão Bonaparte, L’Aiglon, foi consumido pelo bacilo de Koch, aos 21 anos, no Palácio de Schönbrun, em Viena-Áustria. Ele era obrigado a montar a cavalo por horas e, depois, tomar banho em emulsão de tripas de porco. A favorita de Luís XV, a famosa marquesa de Pompadour, imortalizada em uma magnífica tela de Natier, que pode ser apreciada no museu do Louvre-Paris, era tuberculosa. Tratou-se com sangrias, exercícios violentos e leite de jumenta.
Em meados do Século XIX, receitava-se para tuberculose opiácios, ferruginosos, creosoto, pomada de iodeto de potássio nas axilas, exercícios, sanguessugas, sangrias, bálsamo de Peru e musgo da Islândia. A Dama das Camélias e Chopin foram submetidos aos tratamentos descritos acima. Surgiu também, no século XIX, a mística do ar das montanhas. Sanatórios foram criados em toda Europa, EUA e no Brasil, entre outros países.  Um dos mais famosos foi o Sanatório de Davos, na Suíça, imortalizado no livro “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann. No Brasil, os Sanatórios de Campos do Jordão-SP foram enaltecidos no livro de Dinah Silveira de Queiroz, “Floradas na Serra”.
Todos esses tratamentos eram inócuos. Muitos bárbaros e nocivos, mas nenhum causou a mortandade que causou, por ironia, a tuberculina (cultura do bacilo da tuberculose), de Robert Koch, o descobridor do agente causal da doença. Em 1891, Koch publicou o artigo "Sobre um remédio para a cura da tuberculose". A notícia de um medicamento milagroso espalhou-se por toda a Europa e EUA com uma rapidez estonteante. O preço foi para as alturas. Cobrava-se mil dólares por centímetro cúbico do novo medicamento. Logo percebeu-se que a tuberculina causava agravamento das lesões e mortes. Koch foi massacrado.  Desculpou-se dizendo que havia sofrido pressão do governo alemão para anunciar suas pesquisas. Em 1882, Carlo Forlanini, italiano, criou a colapsoterapia (pneumotórax). Foi o primeiro tratamento racional até a descoberta da moderna quimioterapia, na década de 1940.
A Covid-19, com apenas sete meses de vida, já coleciona uma lista de medicamentos. Até que surja um tratamento comprovado cientificamente, muitas pessoas usarão, em vão, fármacos antimaláricos e ou vermífugos sem comprovada eficácia, na busca insana de curar essa nova doença que assola a humanidade.   
ana margarida furtado arruda rosemberg
Fortaleza, 18 de julho de 2020

segunda-feira, 20 de julho de 2020

7 – APRECIAÇÃO CRÍTICA DE UMA OBRA DE ARTE – Ciência e Caridade (1897) - Pablo Picasso (1881-1973)

Texto publicado no Jornal do Médico, em 5/7/2020.

Link para o Jornal do Médico


7 – APRECIAÇÃO CRÍTICA DE UMA OBRA DE ARTE – Ciência e Caridade (1897) -  Pablo Picasso (1881-1973)

A pintura “Ciência e Caridade”, 1897, de Pablo Picasso, é um óleo sobre tela, 197 x 249 cm. Pertence ao Museu Picasso de Barcelona.
               Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno Maria de los Remedios Cipriano de la Santissima Trinidad Ruiz y Picasso nasceu em Málaga - Espanha (1881) e faleceu em Mougins -Alpes Marítimos – França (1973), onde viveu a maior parte de sua vida. Picasso, um dos mais importantes artista do século XX,  foi pintor, desenhista, escultor e gravador. Ele é considerado, ao lado de Georges Braque, o fundador do cubismo. Picasso deixou um legado monumental de quase 50.000 obras de arte: 1.885 pinturas, 1.228 esculturas, 2.880 cerâmicas, 7.089 desenhos, 342 tapeçarias, 150 cadernos e 30.000 gravuras.

A tela “Ciência e Caridade”, pintada quando Picasso tinha 16 anos, apresenta quatro personagens em um quarto. No centro, uma mulher acamada, extremamente pálida e moribunda. Sentado, representando a ciência, um médico, em uma atitude ética e afetuosa, tomando-lhe o pulso e olhando para um relógio de bolso. Do lado oposto, representando a caridade, uma freira com uma criança nos braços, tentado dirimir o sofrimento da paciente que olha para filha com um olhar de angústia, prevendo a orfandade da criança. O pai e a irmã de Picasso, Lola, serviram de modelos para o médico e a paciente. “Ciência e Caridade” foi premiada na Exposição Provincial de Belas Artes de Málaga e ganhou menção honrosa na Exposição Nacional de Arte de Madrid. Atualmente, faz parte do acervo do museu Picasso de Barcelona, sendo a mais importante obra do referido museu. O título da tela “Ciência e Caridade” nos leva a refletir sobre a importância de se oferecer ao paciente, além do apoio científico, o apoio emocional e espiritual.

ana margarida furtado arruda Rosemberg         
    Fortaleza, 1 de julho de 2020