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sábado, 2 de junho de 2018

Ana Maria partiu!

Quando o manto da noite cobriu o dia 25 de maio de 2018, em Fortaleza, Ana Maria partiu para outra dimensão!
Partiu de mansinho e sem alardes, como era seu jeito de viver.
No meio da imensa saudade que deixou, ficou a triste constatação de que quanto  mais vivemos  mais morremos, pois a nossa verdadeira morte é a morte das pessoas que amamos.
Conheci a Ana Maria  nos idos de 1969, quando ingressamos juntas na faculdade  de Medicina da UFC. Fazíamos  parte do grupo das Ana (s). Éramos quatro. Eu (Ana Margarida), Ana Lúcia,  Ana Maria Barbosa  e ela, Ana Maria Dantas, além  de duas Ângela (s): a Brito e a Vasconcelos.
Graciosa, meiga e faceira, Ana Maria nos cativou de pronto e para  sempre.  Mais tarde, na década de 80, depois de abraçarmos a tisio-pneumologia, nos reencontramos  no Hospital de Maracanaú. Formávamos com a Valéria,  Tânia, Nadja e Beth o grupo das seis na luta ferrenha para curar os pacientes tuberculosos. Muito mais do que colegas de trabalho, éramos  amigas. Nosso grupo  desafiou o tempo. Sim, o tempo que tudo muda, transforma e destrói, não  conseguiu  destrui-lo e ele permanece  incólume  até  os dias atuais. Na década de 90, algumas trilharam caminhos diferentes na pneumologia, mas sempre unidas. Formando um grupo singular, servíamos  de exemplo  para os demais discípulos cearenses de Hipócrates. Das seis, restam quatro. A primeira a partir foi a Nadja, a querida  Dadá, que deixou um vazio sideral e uma saudade imensa. Na década de 90, quando a luta contra o tabagismo no Ceará estava se consolidando, a Ana Maria compartilhou com o nosso grupo do Comitê Coordenador de Controle do Tabagismo no Brasil-Capítulo CE momentos vitoriosos na luta por um Mundo sem tabaco. Abraçou essa causa e continuou nessa luta, ao lado da Tânia, no Hospital de  Messejana até  recentemente. Finalmente, nos últimos  anos, tive a imensa alegria de participar com ela do grupo político “Médicos pela Democracia”. Foram muitos os  momentos vividos nessa nova trincheira de lutas. Dividimos, também, ela e eu, momentos  de enlevo apreciando exposições de arte na companhia da Beth Carvalho e da Vera Mamede. Formávamos o grupo das artes. De grupo em grupo, minha amizade com a Ana foi se fortalecendo e se amalgamando. Desse modo,  fizemos a nossa convivência nessa trajetória terrena.
Ana Maria  falava dos filhos: Raquel,  André e Natália e do marido, Helder,  companheiro de toda a sua vida, sempre  de maneira muito carinhosa.  Trocávamos ideias sobre nossas vidas e sobre política, sem restrições, como só  as grandes e sinceras amizades permitem.
Perdi uma amiga de qualidades excepcionais; o Ceará  perdeu uma médica que deu com altruísmo o melhor de si para curar, aliviar as dores e consolar os pacientes; o Brasil perdeu uma guerreira na luta por uma sociedade  mais igualitária e justa. Dorme em paz Ana Maria,  sua missão  foi nobre e seu legado será perene.
Ana Margarida Arruda Rosemberg
Paris, 31 de maio de 2018.












sábado, 7 de abril de 2018

NÃO À PRISÃO DE LULA


Imagens do Sindicato dos Metalúrgicos, ontem, 06.04.2018, em São Bernardo - São Paulo





EDITORIAL DO JORNAL DO BRASIL 06.04.2018


 JORNAL DO BRASIL - EDITORIAL 06/04/2018
O Brasil não merece esse Brasil


Hoje, amanhecemos em um dos dias mais tristes do Brasil. A prisão de um ex-presidente da República, fato que não encontra similar em qualquer página de nossa História, mesmo nos momentos de conturbação intestina. Dia triste, independentemente de termos ou não simpatia por esse metalúrgico pernambucano,  que chegou à alta magistratura do país, e, estando lá, deixou contribuição para nossa projeção no exterior. Triste, mais ainda, pelo fato de que, antes de se tratar de um presidente, foi um cidadão condenado, por crimes que sempre negou, sem que os tribunais lhe dessem a oportunidade de ir às últimas instâncias para defender-se. Nisso a Constituição também sai machucada. Ora, se esse é um direito que lhe é negado, por obra de filigranas jurídicas, imaginemos o que pode ocorrer com qualquer outra pessoa alvejada pelo martelo de um juiz na segunda fase de julgamento. 

Presidentes houve que tiveram de enfrentar quadras de doloroso constrangimento. Alguns apeados do poder por força de armas; outros, sob pressão político-partidária ou reféns, sem que tenham faltado aqueles que caíram, por não cederem a interesses inconfessáveis. Vargas, protagonista da tragédia maior, decretou sua própria morte. Mas nenhum preso, o que fez desta sexta-feira um dia melancólico, tanto para qualquer um de nós, que amanhecemos com ele, mas, se a História tem alma, também para ela, que haverá de dobrar essa página com imenso pesar. Ela, talvez mais ainda, porque estará guardando para o futuro uma sentença prolatada quando o julgamento ainda caminha, à procura de provas, não circunstanciais, mas consistentes. Lula está no centro dessa tragédia, cujo lance mais chocante, com sinais de exagero, foi a fixação da hora para se apresentar ao carcereiro. 

Neste mesmo espaço, cedendo a compromissos que supõe inarredáveis, este jornal levantou-se para afirmar que Lula precisava, como ainda precisa, ser tomado na conta de vítima privilegiada de uma estrutura política que se deixou dominar por vícios que, de tão poderosos, são capazes de ditar ao presidente concessões ou arbítrios que ele, em sã consciência, não toleraria. A reflexão ainda faz sentido hoje, porque a estrutura asfixiante sobrevive e vai sobreviver. Além do mais, é permitido denunciar que falta alguém no banco dos réus em que Lula se sentou. Quem? Os patriarcas das oligarquias que se elegem e se reelegem infinitamente, e na prática desse crime são capazes de fazer tanto, ou mais, do que se atribui ao ex-presidente. O juiz Moro devia dar assento nesse banco aos que armam esquemas milionários para fazer a estreia de seus filhos e dos cônjuges na política, sem faltar espaço para os amigos do poder, que descobrem em pizzaria malas de muitos milhares de dólares. E os senadores, que se subornam, mas afirmam que se trata apenas de empréstimo pessoal e amigável. Em que celas o douro Moro mandaria que se hospedem os autores desse velhaco fundo partidário, onde vão beber os sedentos de sempre? Lula, solitário, por ser acusado de receber, de prêmio, um tríplex, o que é grave, mas depende de comprovação. E os que serviam fielmente a governos anteriores e hoje têm trânsito livre no gabinete presidencial, ou quem, ironicamente ministro da Justiça na gestão Fernando Henrique, pratica, à vista de todos, acrobacia entre as dezenas de processo em que se indiciou. 

O mundo desaba nas costas do metalúrgico, sob o olhar indiferente de gente impune. Que dia triste!